A história da minha vida

A história da minha vida pode ser dividida em duas grandes partes que são:

A primeira, aquela minha história vivida mas não lembrada, ou seja contada, por amigos familiares ou mesmo pessoas que não sendo uns ou outros, presenciaram algum episódio e numa conversa vão contar o que viram.

A segunda, essa sim, vivida também por mim e que eu vou poder relatar por me lembrar.

Muito embora possa completar ainda por relatos de familiares ou amigos.

A minha história começa a 24 de Abril de 1971. Um sábado as 9h30. Aqui vou eu!

Com muita dificuldade visto eu "sair" graças a uns aparelhos que me deixaram uma marca na cabeça "ausência de cabelo" e que me trouxeram complicações e uma estadia entre os três dias e três meses num hospital pediátrico em paris onde eu fui considerado um milagroso sobrevivente. Ah sim eu nasci em França a uns vinte quilómetros a norte de Paris numa vila chamada Domont.

Como a minha história de vida, aos três meses já era cheia de peripécias e que a minha saúde era frágil os meus pais deixaram-me em Agosto na minha avó, onde eu estaria melhor, e mais vigiado e com melhores cuidados a nível de saúde.

Nada então a dizer até aos meus três anos que mereça comentário foi a rotina do dia a dia num pais que estava debaixo de uma ditadura.

Em 1974 aconteceu o que toda a gente sabe na história de Portugal e para mim foi novamente a emigração com uma tia minha que na altura tinha 17 anos e que me levou de volta para os meus pais. Em França lá fiquei eu no início com a minha tia e depois de ela casar dois anos depois fiquei numa ama a guardar até 1977 onde os meus pais tentaram um regresso a Portugal e eu acompanhei....

Tão pequenino e tão viajante.

Em Outubro de 1977 eu fui para a escola primária de Fafe agora chamada delegação, perto da feira aprender a escrever na primeira classe (agora primeiro ano). Outubro porque antigamente a escola era só de manhã ou de tarde e só começava em Outubro.

Lá começou novamente uma rotina diária que nada tem de especial até ao mês de Fevereiro de 1979 onde novamente eu mudei de escola primaria e fui para Seidões, freguesia colada ao Rego, Celorico de Basto (isto para situar geograficamente)embora pertencente a Fafe donde era e é a minha avó, tudo isso porque o regresso a França e nova saída de Portugal eram os projectos dos meus pais, com o argumento da minha mãe simples e eficaz:" Ganho lá numa semana o que aqui ganho num mês". Eu fiquei na escola para não perder o ano escolar, a segunda classe. De finais do mês de Fevereiro a finais do mês de Julho foram os meses mais intensos da minha pequena juventude em companhia do meu falecido avó e da minha ainda viva avó onde eu andava a solta no meio do monte fazia os deveres (agora chamados trabalhos de casa) à luz, a da candeia porque a luz (eléctrica) não existia e eram candeias a óleo ou então aquelas luzes de alimentadas a gás de pequenas botijas azuis agora conhecidas como camping gás a luz dos acampamentos. Altura em que a comunicação entre as famílias era por carta e levava entre uma semana e quinze dias a percorrer a distância entre França e Portugal e vice-versa. Uma chamada telefónica era só dos correios e era preciso esperar que o operador de rede fizesse a ligação o que demorava entre duas a três horas de espera quando por vezes se esperava por nada ou seja era impossível naquele dia a dita ligação.

Neste período onde eu fiquei novamente nos meus avós, a minha rotina começava logo pela manhã antes das oito horas onde eu ia com o meu avô a fonte buscar água num cântaro em plástico enquanto o meu avô levava um em ferro para as necessidades de agua pura (consumo) do dia. O meu avô era moleiro e a minha avó negociava tudo o que se podia negociar, então vivíamos perto de um rio cuja água servia para limpeza e higiene diária de cada um. Nos dias em que a minha avó "cozia o pão" Fazia boas broas de milho. (O trigo era o de padornelo que ainda existe e com boas características de conservação por isso era usado. Mas tinha de ser comprado a uma padeira que só vinha uma vez por semana.) No dia em que ela cozia o pão a ida a fonte era duplicada ou mesmo triplicada porque a agua necessária não era a do rio com é óbvio. (sem condições não quer dizer sem higiene.)

Depois da ida a fonte a rotina diária era continuada com uma tarefa que consistia a apanhar cisco e lenha para a lareira que iria ficar acesa todo dia para fazer o caldo (hoje sopa). E aquecer a agua que estava num pote de grande capacidade para lavar a loiça ou mesmo para um chá etc.... O caldo era feito todos os dias. No final dessa tarefa era a ida ao labrador (lavrador o erro é de propósito porque era assim que se falava). Para ir buscar o leite saído directamente da vaca em directo a minha frente para o pequeno-almoço, (O leite vinha numa garrafa em alumínio que era usado na altura para esse tipo de transporte) o pequeno-almoço tomado em grande velocidade porque tinha de ir para a escola as 8h30. Havia um fogão daqueles sem forno de duas bocas e com botija grande mas que só servia em certas ocasiões de mais urgência. Alguém com uma dor de noite ou então para aquecer o leite da noite do meu primo que tinha três anos. Filho da tia que me tinha levado para França. Como não havia luz também não havia frigorifico e a conservação dos alimentos era impossível a não ser pelo fumo os chouriços ou pelo sal na salgadeira. O vinho esse era refrescado no rio que estava perto. (por trás da casa). O fiambre iogurtes eram poucos e só de quarta a sexta feira porque eram comprados a quarta dia de feira. A carne que vinha de Fafe era de vitela porque em casa havia porcos galinhas e coelhos. Como não se podia conservar nada matava-se a medida das necessidades que podiam ser diárias ou então excepcionais como por exemplo visitas se muita gente matava-se um galo se pouca uma galinha. Para mim a idade Fafe para os meus avos era uma grande mudança eu em Fafe já tinha uma televisão a preto e branco (ainda me lembro de uma novela chamada Gabriela), já tinha frigorifico ou seja já havia luz eléctrica e foi para um sítio sem condições. Passei de uma casa com quintal para uma casa no meio do monte passei dum local com condições para um local sem elas.

Que choque cultural. Inicio de uma vida feita de mudanças algumas mais difíceis do que outras mas que participaram a uma construção cultural atípica.

Mas voltamos então para a minha nova vida no meu novo e temporário local, com poucas condições e paradoxalmente o local onde eu mais gostei de viver porque onde havia mais liberdade do que o habitual. Liberdade, iniciativa eram os dois sentimentos que eu tinha para além daquelas obrigações ao nível de tarefas domesticas já explicadas havia também a obrigação escolar das 8h30 as 12h30 e os deveres durante a tarde que eram feitos a noite a luz da candeia a gás ou mesmo de manhã quando havia o milagre do tempo disponível e havia quase sempre, Aí a noção de milagre (evento raro e inexplicável) passava a ser uma rotina quotidiana. Como fazia eu? Mesmo hoje não sei o que sei é que curiosamente havia tempo ou então em ultimo recurso era mesmo na sala de aula da minha escola em madeira que as coisas aconteciam, fazia os meus deveres na sala enquanto a professora verificava os deveres dos outros. Pois é, eu verifiquei muito rapidamente que ....Como na mesma sala havia primeira e segunda classe. A professora verificava os trabalhos dos alunos da primeira classe logo no inicio e deixava os outros em paz o tempo suficiente para sara biscar qualquer coisa.

Porquê então tanta indulgência por parte da professora? Eu ouvi a minha mãe dizer a mesma professora antes de ir para França que os meus avós não sabendo ler não me poderiam ajudar nos deveres, isto explica aquilo. Ou seja mesmo que os meus trabalhos de casa não fossem feitos havia sempre a desculpa "não percebi".

A minha liberdade e capacidade de iniciativa levou-me desde cedo a ser um grande "malandro" não mentiroso mas manipulador, graças ao aproveitamento das falhas que poderiam surgir a qualquer altura e que eu aproveitava logo a meu favor com o objectivo sempre de trabalhar o menos possível. Outro exemplo foi que nessa altura em 1979 em Abril surgiu a electricidade e o alcatrão na estrada até lá era em terra. A professora como vinha de Fafe e a camioneta carreira como se dizia então, ou Landim. Deixava os passageiros longe da freguesia porque ou a estrada em terra estava cheia de lama que o autocarro não podia andar ou então as maquinas de alcatrão não deixavam passar a camioneta e a professora estava sempre atrasada, porque coitada fazia a volta de dois quilómetros a pé, eu como estava a hora sempre esperava 15 minutos e vinha embora e dizia a minha avó que ela estava doente (a professora). O que eu não tinha observado é que a medida do avanço do alcatrão a professora andava menos e logicamente atrasava-se menos. Um dia por questão de metros ela viu-me e eu então tive de voltar para a escola, era o fim da brincadeira que durou duas semanas.

As aulas lá foram correndo numa rotina que também trazia novidades. Mas o que importa é que as 12h30 eu era sempre o primeiro a sair. A minha velocidade de fuga para casa era mais do dobro dos outros.

Almoçava por volta da uma hora e, a tarde era minha. A minha avó mandava-me fazer os deveres e não podendo verificar eu enganava a mulher quanto podia, até ao dia que ela começou a socorrer-se de uma vizinha que sabia ler, o que me complicou a situação e me diminui-o a liberdade e os tempos livres da tarde. No fim da tarde normalmente o meu avô ia levar a farinha aos fregueses (agora são clientes), e trazia milho ou centeio para moer. Por cada vez iam três sacos de duas ou mais rasas (+ou - 15 a 18 quilos) dependendo do produto neste caso cereais). A mula era má e não gostava de mim, eu não lhe ficava atrás. Mas acabamos por ficar amigos passados uns meses por eu ia a frente e arrancava ervas para lhe dar de comer.

Os grandes clientes que eram as vendas (loja de aldeia onde havia de tudo, mercearia, café, roupas, onde se ia buscar o correio.)

Pois é o correio, outra desgraça minha de tempos a tempos a minha avó mandava me ir as lojas, as vendas, e eram três, em três locais diferentes e longe uns dos outros, perdia por vezes aquilo que me restava de tarde após os deveres a caminhar entre as vendas e por vezes por nada, não havia cartas.

Que dia cansativo mas ainda não acabava porque uma vez por semana o meu avô picava uma mó como tinha três era quase todos os dias e os restantes eram passados na forja a aguçar os picos. Já vou então explicar isto ao pormenor. O meu avô tinha três moinhos cada um com o seu nome... No início começou com dois era o moinho da Porta, e o do Canto, o primeiro ao lado da porta e o outro no canto ao lado oposto. A empresa cresceu e então foi construído outro depois de os meus avós comprarem a habitação porque no início eram caseiros (agora inquilinos). Esse ficou conhecido como o moinho novo. Lógico não é? Mas criou-me uma pequena dificuldade porque eu não conhecia a história dos moinhos e como o moinho do canto com o aparecimento do outro o Novo deixou de ficar no canto para ficar no meio porquê então chamar moinho do Canto ao moinho do meio? Eu tinha oito anos....

O meu avô então picava os moinhos e eu ajudava, noite dentro a picar á luza da candeia a petróleo um atilho banhado em petróleo e uma chama para ver e mal mas era melhor do que o escuro.

Mas que vida.... A medida que se picava, (trabalho que consistia a eliminar o liso da mó, a pedra redonda de cima e a base do moinho que com o esfregar rompe e alisa e não moí em condições.) Picar consiste em dar outra vez relevo e criar asperidade, limpava-se a pedra varrendo com pequenas vassouras. O pico rompia-se também ao picar e era preciso aguça-lo numa forja. Aquecia-se o ferro até este estar escaldante ou vermelho e batia-se com um martelo de forma a moldar novamente o pico.

O moinho era ao lado do rio, Havia uma açuda (como uma barragem) que era um reservatório de agua, daí ia num canal onde estava o lavadouro em pedra, para o poço onde ganhava pressão entrava no esguicho que esguichava como um injector de um carro a agua para as penas parte em madeira que fazia rodar o veio que rodava a mó parte móbil do moinho que ao rolar transformava a cereal em farinha ou então no caso milho em milho ralado para os pitos (agora pintainhos), Porque havia um regulador em altura que levantava a mó e deixava passar a produto a transformar mais ou menos grosso. Em cima da mó havia uma peça em madeira que ao contacto com esta fazia vibrar a canalização que vinha do reservatório (agora SILO) de cereais para o centro da mó que tinha um buraco e com o movimento circular acabava expulsa para um reservatório de farinha.

O produto milho ou centeio ao chegar era pesado numa balança. Ao chegar porque 15 quilos de milho não dava 15 quilos de farinha havia um cálculo de perdas. (Analfabetos mas sabiam contar).

A rasa era 200 escudos para moer, ou então havia que moesse á maquia, neste caso em vez de pagar em dinheiro pagava-se em produto.

A minha avó que negociava em tudo por vezes comprava um carro (não é um automóvel, mas sim quarenta rasas.) de milho ou centeio e moía vendendo a farinha obviamente mais cara e ganhando com o lucro diferencial do preço de compra da cereal e venda da farinha mais cara ao quilo. Mais um episodio da rotina diária daqueles tempos. Quando o meu avô ia levar a farinha sabia-se quando ele saia mas não se sabia quando voltava e então a minha avó mandava-me ir com o meu avô para que esse voltasse mais cedo porque eu teria de ir para a cama para poder ir no dia seguinte para a escola. Grande erro é que nem eu nem o meu avô estávamos com pressa de voltar e corria-mos as tascas na conversa até as tantas da noite claro. Eu quase que ainda era pior do que ele.

A mulher no dia a seguir porque naquele ela nem dava por a nossa chegada. Berrava berrava berrava tanto tanto tanto que não servia de nada e chateava a farta, á noite eu ia novamente com o meu avô com a promessa de o trazer mais cedo e começava tudo de novo por igual.

Assim vai a vida. E que grande vida imaginem só nem horas haviam no pulso só o sino da igreja e um despertador enorme na sala.

Um dia fomos a festa do corpo de Deus em direcção de Amarante numa camioneta (autocarro) CABANELAS Agora empresa RODONORTE. Fomos na primeira e viemos na última (por sorte) quase nos esquecia-mos de vir para casa. Corremos a vila toda de lés a lés de norte a sul de este a oeste a pé e de barco (só de remos com remador) De tasco em tasco não me lembra comer mas foram vinte e oito cervejas e vinte e oito sumois bebidos no dia. O meu avó era conhecido como os "rosquilhos", Moleiro e caçador e reparador de armas, o melhor, segundo dizem os entendidos da altura. Corremos tudo não se pagou metade, ele obviamente, eu não tinha dinheiro foi uma loucura e uma lembrança agradável que ainda hoje me traz alegria por ter passado este momento e que me fez adorar o local mais do que qualquer outro. Lá explicarei isto mais a frente. Passado este momento que permite referenciar temporalmente a situação uma quinta-feira dia do corpo de Deus num final de Maio início de Junho do ano 1979.

O verão aproximou-se e então vem os dias grandes e o bom tempo o fim da escola e o passar dos dias sem fazer nada.

A rotina continuou até ao mês de Agosto mês de férias dos emigrantes, e aquele não escapou a tradição. Os meus pais voltaram como emigrantes de férias que se desenrolaram normalmente visto eu não me lembrar nada de particular.

O que me lembra, foi uma novidade, que foi a notícia da minha partida para França outra vez, o que viria a mudar por completo a minha vida, personalidade e forma de pensar, porque iria para um país que era, e é diferente.

A agravante da história é que a língua (francesa) por falta de uso tinha pura e simplesmente desaparecido da minha memória. Tinha novamente de pôr, e pus tudo em causa na minha curta vida. No fim do mês de Agosto e contra vontade lá fui eu num autocarro da INTERNORTE, para PARIS.

No final do dia seguinte lá estava eu na vila do meu nascimento, (o conceito de concelho, cidade não existem) em Domont pequena vila de onze mil habitantes na altura e situada a vinte quilómetros à norte da capital, no departamento 95.

No início do mês de Setembro lá fui eu para a escola, sim no início e não de Outubro como em Portugal. Mas que grande injustiça! Menos um mês de férias, e não é tudo porque eu que estava para ir para a terceira classe, voltei para a primeira com 8 anos, porque não sabia falar francês e logo tinha de o aprender...

Como puderam ler mais acima eu era, e sou mestre em adaptação e lá me adaptei com rapidez a minha nova situação. Com grande vontade, força de carácter, luta pessoal, empenho que eram e são uma imagem de marca minha, deixei andar as coisas e passar os dias até que houvesse melhoria na minha situação. O que mais tarde ou mais cedo teria de acontecer.

A minha escolaridade nada tinha de anormal, logo nada para dizer. Em Setembro fui para a escola e em Novembro mudei ou mudaram-me de casa, para uma ainda maior, e mais longe da minha escola o que me obrigaria a fazer a pé um caminho mais cansativo e longo.

Os trabalhos de casa, deveres, em francês, devoirs, eram feitos a tempo e horas e não eram de uma grande dificuldade, porque a única coisa que era diferente era a língua.

Na altura acabei por já não me lembrar de Portugal e só o fazia quando os meus pais recebiam ou enviavam cartas pelo correio e eu com um sentimento esquisito de que desta vez não iria para a venda ( a definição está mais acima), buscar as cartas porque estas caíam na caixa do correio a porta de casa, e que eu desta vez estava do outro lado da estrada ou seja o destino tornou-se partida e vice-versa.

Que vida curiosa a minha. O francês tornou-se pouco a pouco a língua dominante.

O mês de Agosto aproximou-se e as férias também. Uma constante durante a minha estadia, vida em França eram os dias de São João e o 14 de Julho. Grande sinal e ponto de referência, uma espécie de farol temporal que iluminava a partida para as férias como um farol indica a costa a um barco. Os anos foram passando e as férias sucessivas também. O grande destaque a seguir foi a compra de um sofá e de uma televisão a cores em 1982 lá para o início do verão. Que grande mudança, Mas na altura em França haviam três canais e paravam durante a tarde, havia programas ao meio-dia e a noite.

Neste ano vim de comboio (train couchette) com camas no compartimento da "gare de austerlitz" em Paris para uma estação de comboio no Porto, e depois de trocar estação de comboio no Porto com as malas as costas nas ruas da cidade vim num outro comboio chamado automotora do Porto a Guimarães e nova mudança em Guimarães e fui numa outra automotora mais pequena para Fafe. Esta viagem marcou-me porque foi a única feita de comboio e pelo susto que apanhei na fronteira francesa quando entramos num pavilhão juntamente com o comboio e uma grua o levantou para que, e vim a saber mais tarde, se aproximassem as rodas umas das outras (reduzir a largura do eixo) porque a distância entre bitolas (termo próprio aos comboios,) eram mais pequenas ou seja menos largas. Eu pessoalmente achei aquilo duma estupidez que decidi saber o porquê, desta situação. E fiquei a saber que a Rússia a Espanha e Portugal tinha larguras diferentes a nível de carris para impossibilitar uma invasão do imperador Napoleão pela via das linhas do comboio.

(O Napoleão eram um imperador francês na altura da invenção do comboio. Mesmo assim chegou a Amarante.) Depois da elevação chegou a reposição das carruagens na linha de bitola reduzida, em Espanha e deixamos de ser puxados pela locomotiva da SNCF para ser por uma locomotiva da RENFE. Ao chegar ao Porto esperamos muito tempo na estação de Vila Nova de Gaia, que viesse um comboio em sentido contrário para avançar e esperamos muito tempo que até chateou os viajantes, alguns saíram até mesmo ali com as malas e foram embora de táxi. Arrancamos e fomos acabar os últimos quilómetros da viagem até ao Porto.

Apanhei outro susto, sim porque passar num comboio na ponte Dona Maria Pia, que tremia, abanava, e eu olhava para a janela e nem via ponte nenhuma porque ela era estreita, até parecia mais estreita do que o próprio comboio. Nunca mais me apanhariam noutra, que susto! Do Porto a Guimarães lá vim eu numa automotora, vi como se curava o bacalhau porque passamos num sítio onde só havia bacalhaus a secar ao sol e alguns a ser salgados. Muito interessante. De Guimarães a Fafe fiquei escandalizado pelo facto de o meu rabiosque já comprimido, porque sempre sentado a dois dias acabasse a viagem num banco em madeira muito duro, pensava também que de Fafe a Guimarães fosse rápido era sem contar com todas as estações das aldeias entre os dois concelhos que iriam atrasar o momento especial da minha chegada ao destino aguardado por mim a muito.

Vinte e quatro horas de comboio entre Paris e Porto três horas entre Porto e Guimarães e uma entre Guimarães e Fafe. Foram os motivos de haver só uma viagem de comboio em toda a história da minha vida, mesmo a camioneta (agora autocarro) era mais rápida.

Nem vou valar daquele barulho dentro da cabeça no dia a seguir, um "badum badum", permanente característico do salto da roda da carruagem ao passar a junta das linhas. As férias foram habituais e nada delas há a dizer. A viagem de regresso já se fez de autocarro e como sempre na Mondinense, porque os bilhetes eram comprados num agente da mondinense em Fafe, que tinha um restaurante chamado - A Dinâmica. Onde agora está uma loja de óculos ao lado da shake pastelaria muito boa em Fafe . A partida, porque não havia central de camionagem, era feita de frente a uma loja do - DANTAS que existe ainda agora ao lado de umas bombas de gasolina da Galp mesmo no centro da cidade.

Em 1983 em Maio foi a compra de uma viatura, nova que iria permitir vir a Portugal sem ser de autocarro, de comboio, o avião nem se falava.

Um Renault 18 em versão carrinha para transportar mais "coisas" de França para cá porque aqui era uma miséria, não havia nada, e o pouco que havia era de fraca qualidade. (Portugal era na altura uma espécie de pais africano na Europa, acabado de sair 10 anos antes de uma ditadura que até o meu nome amputou pelas mão de um funcionário consular analfabeto que não se sabe como estava presente no dia da comunicação do meu nascimento). O papel higiénico quando o havia era só de uma folha e o bacalhau se fosse de um quilo era um bom bacalhau. Por isso trazia-se coisas de fora como o bacalhau da fronteira espanhola, Principalmente de Feces, última localidade de Espanha antes da fronteira portuguesa de Chaves, situada na freguesia de Vila Verde da Raia. O óleo os rebuçados e outras coisas que agora já ninguém liga e que dantes era importante, completava-se a oferta de produtos com mercadoria de uma loja hotel restaurante da zona de Burgos mas ainda situado em Palencia, conhecido como SUCO que tinha a particularidade de ter funcionários que falavam português francês para além do espanhol e aceitavam como modo de pagamento a PESETA o FRANCO e o ESCUDO, esse local tanto vendia no regresso a Portugal como na partida para França, num sentido eram prendas para a família no outro prendas para algum francês que fosse amigo ou o patrão, senhorio etc...(Perguntem a qualquer imigrante se ele não conhece o Suco?) No regresso era o vinho do Porto o SG.Gigante, o presunto caseiro defumado, os chouriços e mesmo os mouros (chouriça de sangue). Até a broa caseira da minha avó eu levava, os sugos, (espécie de rebuçado quadrado e mole). E não esquecer a aguardente caseira, o bagaço para matar saudades do país durante o ano sem esquecer o vinho verde da nossa terra como dizia a canção.

Com sorte chegava tudo mas por vezes tinha de se deixar na fronteira de Hendaye em França parte da "riqueza" aos funcionários aduaneiros (alfândega). O meu pai tinha uma capacidade de adaptação pensou, e com razão que se passasse num posto bem ao centro da via era mais difícil aos guardas parar todo o trânsito situado nas filas do lado direito para nos obrigar a encostar a berma para nos revistar o carro. Tal pai tal filho. Logo nunca fomos revistados, ou então se houvesse uma fila única esperar por um carro mais carregado e menos legal e pôr-se atrás, e enquanto o da frente era parado nós passávamos.

Bom, continuando os anos foram passando, e minha vida continuou e numa rotina quotidiana de onde nada há a assinalar e com aqueles picos de relevo que são as férias o Natal e a Páscoa, festas de natureza e de cultura cristã que pouco a pouco entrou também nos hábitos dos não cristãos. França país laico (sem religião dominante) onde vivem pessoas das mais várias origens étnicas, logo de culturas e hábitos diferentes e também de religiões opostas. Sim, que se opõem, todos tem razão mesmo que as suas histórias sejam contraditórias, o que quer dizer que alguém anda enganado, mas logo cedo aprendi que a crença não está sujeita a prova e a tolerância e o respeito do outro é essencial não por educação mas por espírito de sobrevivência. O fanatismo é perigoso e não se crítica costumes ou religiões, senão cria-se um conflito que pode não ter fim.

Em 1986 em Abril nasce o meu primo que passa a ser meu afilhado em Agosto, ano e mês em que o meu avô andava mal porque tinha problemas de circulação (sanguínea) já não tinha ido caçar ou pescar e tinha também problemas de diabetes. Logo entre o baptizado e as idas ao centro de saúde o mês acabou sem grandes férias. Mas lembro-me do dia da partida e da hora 4h00 da manhã, o meu avô fora e eu a dizer adeus, levantar-lhe a mão ele levantou-me a mão também e foi última vez que o vi com vida.

Vou então explicar, 8 de Novembro 1986 um sábado 8h00 da manhã telefonam para a minha tia a dizer que o meu avô tinha falecido num hospital no Porto após uma cirurgia às pernas. O coração não aguentou, ele tinha 64 anos. O pior dia da minha vida eu tinha 15 anos e nunca tinha falecido uma pessoa que era amiga minha e logo aquela que eu mais gostava. Que choque acordar com um grito da minha tia. No mesmo dia o meu pai e meu tio foram a agência de viagens compraram os bilhetes e viemos de avião para Portugal, Paris Lisboa e Lisboa Porto. à meia-noite estávamos no Porto e às três em Seidões Fafe, na altura não haviam auto-estradas.

O domingo foi um dia estranho e na segunda só realizei quando vi o caixão, (agora urna fúnebre). A primeira vez que o via assim, (o meu avô) e nunca tinha visto um morto.

Funeral na terça, quarta e quinta nada de especial e na sexta pensar no regresso que foi de autocarro da nova central de Fafe que se encontrava frente a Câmara Municipal no local exacto onde está agora o parque pago. A minha herança foi uma navalha, um isqueiro e a fotografia do meu avô que estava na carta de caçador, e a lembrança daqueles bons momentos passados juntos. Ainda hoje tenho esses objectos. Mas aprendi uma coisa o que realmente fica são as lembranças, dos bons e maus momentos, até nos lembramos dos maus momentos com carinho, tudo é bom.

Lá fui eu novamente para França mas algo tinha mudado, isto já não é o que era.

O que eu aprendi e que me ficou para a vida e o que ainda me orienta hoje é que o mais importante é a saúde e as lembranças que temos das pessoas que já partiram ou que já não vimos á muito porque como diz o outro a vida não dá, e essas pessoas estão muito longe (geograficamente).

De regresso voltei a uma escolaridade cada vez menos interessante mas obrigatória. Uma vontade de ganhar dinheiro e obviamente trabalhar, para comprar "coisas" que me agradassem no momento e esperava eu para sempre o que não acontecia todas as vezes.

A minha avó passou a residir em França logo após o funeral até ao mês de Agosto do ano seguinte, ficou a guardar o meu afilhado que também era seu neto no seu primeiro ano de vida. Aqueles meses com o resto da família juntos, a minha tia morava num apartamento por cima do apartamento dos meus pais, foram diferentes e a diferença era a minha avó porque, os avós também chamam a atenção aos pais e defendem os netos, já havia mais equilíbrio.

A partir de 1990 eu comecei a coleccionar trabalhos (agora empregos) na área administrativa comercial informática e outras na construção civil etc... etc...

Em 1995 houve uma série de atentados em Paris e uma em especial na estação do RER ST Michel onde eu tinha por hábito passar por volta das 19h00 o atentado foi as 16h45 e logicamente pensei que podia ser, mais cedo ou mais tarde uma vítima. (morreu uma portuguesa mulher de limpeza neste atentado). Começou então a germinar uma ideia que era aquela do regresso definitivo a Portugal. Em Maio de 1997 lá decidi eu que vinha realmente embora para o maior desespero da minha mãe que não percebia porquê que eu queria ir viver para Portugal porque a França era "melhor".

O que me fez decidir foi as greves dos transportes públicos em Dezembro 1996 e em Maio de 1997 que me desgraçavam o trajecto (alongavam) o que demorava em tempo habitual 1h30 a percorrer em dia de greve 4h00 e na altura não havia telemóvel. Para avisar em casa. E a ameaça do despedimento. Decidir é uma coisa aplicar é outra.

No dia da festa da música que era e é o primeiro dia do verão e a noite mais curta do ano eu estava de malas feitas num comboio tão sujo que nem vou descrever, a caminho da estação rodoviária internacional de "Paris Gallieni". Entrei de autocarro por acaso português da AMI agora ARRIVA. Com o vidro de trás pintado com as cores do "Monte do Pilar e o castelo em cima" Foi aí que fiquei a saber que na Póvoa de Lanhoso havia também um castelo. Cheguei no domingo de manhã cedo as 7.30 e ninguém à minha espera porque tinham ido a missa da manhã. Pequeno-almoço na pastelaria e grande alegria minha um mundo novo estava a minha espera...

Após ter visitado a minha família o que durou uma semana, sim eram muitos, visitado o que havia a visitar corri a metade norte do pais de noite, de dia, sem horas e sem compromisso, porque vivia sozinho e em casa (como no filme mas sem os assaltantes).

Mas foi preciso trabalhar e lá fui eu coleccionar empregos e obviamente adquiri experiências que nos são úteis para o nosso dia a dia. Sempre em área administrativa ou comercial. Quando conheci a que agora é a minha mulher, era vendedor imobiliário na Maia perto do Porto. Quando casei era vendedor na worten Guimarães. Mas entre os dois empregos, trabalhei numa carpintaria onde aprendi o que era orlas corrediças e outras peças e ferramentas que nem sequer sabia que existiam.

Quando o meu filho nasceu estava desempregado. No dia em que o meu filho nasceu era também o dia de exame para a minha carta de caçador em S.Torcato no liceu agrícola, nessa quarta feira 21 de Abril de 2004, bom chumbei à teórica e nunca mais voltei a tentar. O rapaz nunca mais vinha e as 7 da tarde tinha os meus pais de França ao telemóvel e o meu sogro ao meu lado lá no hospital de Guimarães, quando tudo à espera da novidade, apareceu o esperado, o José Miguel, a vida lá continuou o seu rumo e eu lá fiquei como bom desempregado a tratar do rapaz nos primeiros 3 meses de vida a dele obviamente até a sua entrada no infantário. De seguida encontrei um emprego de armazenista e funcionário administrativo nas pequenas empresas faz-se de tudo.

Hoje estou a trabalhar num lar onde essencialmente sou motorista TCC (transporte colectivo de crianças). Vigio que os trabalhos de casa sejam feitos para além de outras actividades que vão da manutenção as idas aos médicos, hospitais, naquilo que são as tarefas quotidianas de um enquadramento de crianças onde tudo acontece rapidamente e em simultâneo, o que por vezes nos obriga a ter um sentido de iniciativa e uma capacidade de adaptação fora do vulgar, mas também existe bons momentos como os passeios as idas a praia e outras manifestações que podem ser culturais ou desportivas A vida segue o seu ritmo...

O mais importante na vida é termos uma capacidade de adaptação que nos permite evoluir e aprender. Ainda hoje aprendo e os saberes encontram-se mesmo naquele que nos parecia o maior "atrasado, analfabeto". Aquele que nos era transparente é também aquele que nos vai ajudar sem nós contarmos, ou então aquele que vai dar um conselho que nos vai ajudar a resolver uma situação. Admiro a humildade de muitos que nos passam ao lado, a bondade de outros que sem publicidade a sua pessoa ajudam o próximo, Essas pessoas que tiveram uma vida complicada, e mesmo assim não desanimaram, são os que me fazem ter uma esperança para o futuro que agora é mais do meu filho do que meu. Hoje trabalho num lar de crianças todas elas estão lá por um motivo que para eles é um sofrimento, porque longe dos pais e da família, com pessoas que a pouco e pouco mas não todas, se tornam amigas as ajudam em tudo o que podem e por vezes ainda assim, um pouquinho mais não seria um luxo.

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