Educa��o e Escola

Educa��o e Escola

Sociedade industrial e Escola Fabril

Docente: Professora Doutora Liliana Rodrigues

Discentes: Joana Mendes, Jo�o Medeiros, N�lio Mendon�a and Paulo Moura

Resumo

Neste trabalho, pretendemos expor as consequ�ncias que a revolu��o industrial acarretou para a sociedade de ent�o, e a sua heran�a na educa��o da sociedade contempor�nea. A instala��o das f�bricas nos centros urbanos conduziu ao �xodo rural, transformando-os em aglomerados sociais. A escola fabril � ensino em massa � surgiu para colmatar a falta de m�o-de-obra para o desempenho das tarefas fabris, convertendo o homem da agricultura em homem da f�brica, atrav�s da aproxima��o do contexto escolar com a realidade fabril. N�o tinha nos seus prop�sitos a forma��o de homens cr�ticos, capazes de transformarem o seu meio, mas antes homens h�beis para o trabalho e para a perpetua��o do meio. A escola das sociedades contempor�neas � um legado da escola fabril, mantendo a tradi��o de formar para as necessidades do poder econ�mico deixando de lado o homem integral.

Abstract

In this paperwork, we intend to expose the consequences that the industrial revolution brought to today's society, and its heritage in the education of contemporary society. The factory installations in the urban centers lead to a rural exodus, transforming them into social agglomerates. The factory school � mass teaching � appears to correct the lack of workmanship for the performance of factory's tasks, converting the farm men into factory men, through the approach of the school context with the factory's reality. It was not its goal the creation of critical men, able to transform its environment, but to create working men and to perpetuate the existing environment. The school of contemporary societies is a legacy of factory school, and it kept the tradition of educating for the needs of the economical power, leaving aside the integral man.

R�sum�

L'objectif de cet expos� este celui de relever les cons�quences que la r�volution industrielle a eu pour la soci�t� de l'�poque et l'h�ritage qu'elle a laiss� a la soci�t� contemporaine en ce qui concerne l'�ducation. L'installation des usines au milieu de centres urbains a conduit � l'exode rural, les transformant, alors, en des agglom�rats sociaux. L'enseignement massif (surtout par la cr�ation des �coles dans les usines) est apparu pour d�passer le manque de main-d'oeuvre capable de d�velopper des t�ches ouvri�res, transformant ainsi l'agriculteur en ouvrier, par l�approche du contexte scolaire � celui du monde ouvrier. Cette m�thode d'enseignement n'avait, en tant que propos, la formation de l'esprit critique de l�homme, capable d'intervenir dans le milieu, mais elle voulait surtout cr�er des hommes capables de travailler et de perp�tuer le milieu o� il s'engageait. Les �coles contemporaines sont encore h�riti�res de cette vision de l'�ducation, dans la mesure o� elles continuent la tradition re�ue de former selon les n�cessit�s du pouvoir �conomique, oubliant la formation int�grale de l�homme.

1. Introdu��o

1.1. Defini��o e delimita��o do tema

A "educa��o� e a "escola� s�o dois conceitos que caminham lado a lado.

O termo "educa��o� teve origem em duas palavras do latim, sendo estas educare e educere. A primeira quer dizer "dar forma a�, "formar�, "moldar�, e a segunda significa "conduzir de fora", "dirigir exteriormente". J� o conceito "escola� teve origem na palavra grega schole, ou seja, "tempo livre�, "�cio�. Na antiga Gr�cia, as pessoas reuniam-se na escola para reflectir. No entanto, s� aqueles que pertenciam a uma classe social mais alta poderiam faz�-lo.

Tanto o conceito de educa��o como o conceito de escola foram sofrendo altera��es no decorrer do tempo, sendo actualmente encaradas de uma forma distinta. A educa��o da antiga Gr�cia difere da educa��o da �poca contempor�nea, assim como a escola da actualidade difere da escola da antiga Gr�cia. Estas modifica��es foram ocorrendo gradualmente ao longo do tempo, passando de uma escola como um espa�o para reflectir, para o tempo de "�cio�, para uma escola como um espa�o que procura satisfazer as necessidades da sociedade e do Estado. Segundo Lobato (2001) "o principal objectivo da educa��o grega era preparar o menino para ser um bom cidad�o. Os gregos antigos n�o contavam com uma educa��o t�cnica para preparar os estudantes para uma profiss�o ou neg�cio�. O surgimento da revolu��o industrial � um dos pontos de viragem do tipo de educa��o e escola, dando origem � sociedade industrial. Esta nova sociedade foi confrontada com a necessidade de formar um novo tipo de Homem capaz de satisfazer as car�ncias de produ��o desta.

Assim surge uma escola com caracter�sticas semelhantes �s da realidade fabril, com o objectivo de preparar, em massa, o homem para um trabalho com tarefas especializadas, duras e mecanizadas.

Actualmente, a educa��o e a escola s�o uma heran�a da sociedade industrial. A escola ainda mant�m algumas das caracter�sticas da escola fabril, no entanto h� uma grande preocupa��o por parte do educador na introdu��o de outros m�todos de ensino.

1.2. Justifica��o do tema

"A escola constitui um pilar b�sico na sociedade para a forma��o dos indiv�duos e da pr�pria comunidade em que se integram. Este atributo da escola � ineg�vel, tanto mais que a maioria das crian�as cresce no seio dela� (Marques, s.d.). A escola como pilar da sociedade "... responde �s necessidades resultantes da realidade social, contribuindo para o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indiv�duos, incentivando a forma��o de cidad�os� (lei de bases do sistema educativo, 2005). Tem assim entre m�os a responsabilidade de educar os homens do amanh�, promovendo as modifica��es que considera serem as mais indicadas na transforma��o destes com a finalidade de integr�-los na sociedade como cidad�os "... livres, respons�veis, aut�nomos e solid�rios e valorizando a dimens�o humana do trabalho (...) capazes de julgarem com esp�rito cr�tico e criativo o meio social em que se integram e de se empenharem na sua transforma��o progressiva...� (lei de bases do sistema educativo, 2005).

A escola da sociedade contempor�nea representa tamb�m um meio de transmiss�o cultural que conduz o indiv�duo � reprodu��o das normas e valores da sociedade � reprodu��o social. J� n�o pretende a forma��o integral do Homem, mas ambiciona a forma��o de um indiv�duo submisso ao Estado. Cada vez mais, a escola prepara o Homem para a especialidade ao inv�s da universalidade. Adorno (1993, cit. por Souza, 2006), vai de encontro a esta ideia afirmando que a sociedade contempor�nea � tamb�m uma sociedade industrial, tendo em conta as suas for�as de produ��o.

Desta forma, como futuros professores � necess�rio tomar consci�ncia dos princ�pios subjacentes a esta "escola�, pois o tipo de escola e respectiva educa��o que surgiu com a sociedade fabril marca a escola e educa��o actual.

1.3. Objectivos

Com o presente trabalho pretendemos concretizar os seguintes objectivos:

I. Recolher informa��o para uma posterior an�lise sobre a sociedade industrial e a escola fabril.

II. Relacionar a escola da sociedade industrial com a escola da sociedade contempor�nea.

2. Sociedade industrial

2.1. Origem

A sociedade industrial teve predomin�ncia entre a metade do s�culo XVIII at� � metade do s�culo XX, como consequ�ncia da Revolu��o Industrial. A Revolu��o Industrial caracteriza-se, segundo Castro (s.d.), por uma modifica��o do processo de produ��o, passando de uma confec��o artesanal para uma fabril, de forma a combater uma produ��o em menor escala e mais dispendiosa. Durante este per�odo, o objectivo era a produ��o em massa, isto �, produzir o maior n�mero de coisas no menor espa�o de tempo (efici�ncia). Rioux (1982) refere que com o objectivo de baixar os custos de produ��o surge a necessidade de passar de um "domestic system� para um local de concentra��o das massas oper�rias � f�bricas e estabelecimentos industriais.

Estas altera��es v�o obrigar a uma transforma��o da forma de vida at� ent�o seguida pelas pessoas, como forma de dar resposta �s necessidades que surgiram com a revolu��o industrial.

2.2. Caracteriza��o da sociedade industrial

A grande necessidade de m�o-de-obra provoca um fluxo da popula��o rural para a cidade, local onde se encontram as f�bricas. Ocorre uma separa��o entre o sistema familiar e profissional, sendo que a fam�lia nuclear assume-se como uma institui��o b�sica em prol de uma fam�lia extensa.

Nesta �poca, o n�mero de trabalhadores no sector secund�rio era predominante comparativamente ao sector prim�rio e terci�rio, ou seja, o n�mero de trabalhadores era superior na ind�stria e na constru��o civil, este aumento verificado no sector secund�rio � um claro ind�cio das altera��es que a revolu��o trouxe.

Souza (2006) refere que o aumento da popula��o na cidade conduz ao desenvolvimento da sociedade industrial que, por sua vez, acarreta uma amplia��o e segmenta��o do trabalho, bem como, o aperfei�oamento da m�o-de-obra, rentabilizando os processos de produ��o. Segundo Fino (2001) a revolu��o industrial trouxe consigo condi��es de trabalho miser�veis para o proletariado, tais como: os baixos sal�rios que obrigava a que todos os membros da fam�lia se empregassem; grande n�mero de horas de trabalho di�rio (o ritmo da m�quina determina o ritmo do homem); falta de condi��es de higiene e aus�ncia de seguran�a que originavam acidentes; e uma grande press�o no trabalho dada a exist�ncia de um elevado n�mero de desempregados � espera de uma oportunidade. Segundo Rioux (1982), em m�dia, os oper�rios trabalhavam entre 12 a 16 horas, muitas vezes sem gozo de f�rias, feriados ou o descanso ao domingo e estes excessos de trabalho conduziam facilmente aos acidentes nas f�bricas, sendo por isso comum a exist�ncia de indiv�duos estropiados e consequentemente despedidos, vagueando pelas cidades. Estes factores originaram, nas f�bricas, conflitos entre os oper�rios e os seus superiores, que conduziram a uma actividade sindical fabril, levando a classe dirigente da �poca a adoptar medidas para atenuar o clima social, tal como refere Fino (2001). Tamb�m Pillorget (1981) afirma que o enorme �xodo rural teve como consequ�ncia o amontoar destes indiv�duos nos pr�dios das cidades industriais, onde por sua vez os sal�rios eram escassos e as condi��es de trabalho e vida muito duras, o que provocou um aumento da consci�ncia por parte destes indiv�duos conduzindo-os a uma insatisfa��o e sentimento de injusti�a, dando in�cio a uma luta de classes entre os empregados e os empregadores. Estas causas e efeitos da revolu��o industrial, tais como, os baixos sal�rios, a falta de seguran�a, a explora��o do tempo laboral e a vida dura na f�brica e fora desta � uma realidade dos nossos dias, aplicada a alguns sectores de produ��o. Basta olhar para as not�cias e verificamos a continuidade destas condi��es de vida em alguns dos nossos emigrantes, como � o caso dos 200 trabalhadores portugueses no sul da Holanda que denunciaram serem alvo de amea�as de despedimento e agress�es f�sicas, de viverem em condi��es prec�rias e num regime de liberdade condicionada, com acesso limitado aos sal�rios ou os 79 lusos em Espanha v�timas de escravid�o, vivendo em condi��es sub-humanas sendo obrigados a realizar as suas necessidades fisiol�gicas na rua visto as casas n�o possu�rem um local para a realiza��o das mesmas e tal como os anteriores tinham um acesso limitado aos seus vencimentos. Tamb�m o nosso estado participa neste "cativeiro� ao permitir que ocorram situa��es de mulheres obrigadas a vender o corpo e pessoas a fazerem trabalhos for�ados no seu territ�rio.

Outro dos aspectos que caracteriza a sociedade industrial � a metodologia utilizada, sendo esta uma racionaliza��o e aplica��o evolutiva da organiza��o cient�fica do trabalho. Era exigido ao prolet�rio a execu��o de tarefas espec�ficas, fechadas e mecanizadas, o que Frederick Taylor (cit. por Bento, 2009) designou de "one best way�, como forma de aumentar o rendimento dos mesmos.

Este tipo de sociedade industrial originou uma maior mobilidade geogr�fica e social e uma procura de igualdade de direitos. Esta trouxe tamb�m aspectos negativos tais como: uma excessiva fadiga f�sica e mental dos trabalhadores, fruto do intenso trabalho e explora��o a que estes estavam sujeitos; injusti�as nos aspectos laborais, como por exemplo o despedimento sem garantias daqueles que ficavam estropiados e uma aliena��o da vida social devido �s longas horas de trabalho.

Esta luta pelos direitos laborais e sociais � uma das heran�as mais relevantes na nossa sociedade. O poder que estas revindica��es t�m nas sociedades � enorme. Temos recentemente em Portugal as manifesta��es dos professores, sobre a Revis�o do Estatuto da Carreira Docente e as consequ�ncias que estas trouxeram, substitui��o da ministra da educa��o e perda da maioria absoluta do governo nas legislativas de 2009. Outros exemplos deste poder s�o �s reivindica��es de pagamento das horas extraordin�rias, de uma remunera��o compat�vel e de reconhecimento da dignidade profissional, de 1989 dos elementos da P.S.P. que ficou conhecida como a manifesta��o dos secos e molhados. E os protestos da Ponte 25 de Abril a 24 de Junho de 1994, contra o aumento das portagens.

3. Papel da Educa��o na Sociedade Industrial: Escola Fabril

3.1. Origem da Escola Fabril

Segundo Fino (2000) a sociedade industrial necessitava de um novo perfil de homem, o qual a igreja e a fam�lia n�o eram capazes de formar. Mialaret e Vial (1981, cit. por Fino, 2000) referem que pelo facto da grande maioria dos homens trabalharem na agricultura, onde imperavam os ritmos naturais, n�o lhes conferia aptid�es para o desempenho das exig�ncias/fun��es numa f�brica. Toffler (s.d., cit. Fino, 2000) vem acrescentar a necessidade de um tipo de homem preparado para um "trabalho repetitivo, portas adentro, a um mundo de fumo, barulho, m�quinas, vida em ambientes superpovoados e disciplina colectiva, a um mundo em que o tempo, em vez de regulado pelo ciclo sol-lua, seria regido pelo apito da f�brica e pelo rel�gio�.

Visto isto, era urgente a cria��o de uma escola que desse resposta a esta necessidade de formar a m�o-de-obra origin�ria do campo. Por outras palavras, como sugere Fino (2000), um tipo de escola capaz de formar o homem para suprimir as exig�ncias do modelo industrial e de produ��o. Para a cria��o deste tipo de homem, Toffler (1970, cit. por Fino, 2000) afirma que o ensino em massa foi a solu��o encontrada para a forma��o/educa��o pretendida. Assim:

"A solu��o s� podia ser um sistema educacional que, na sua pr�pria estrutura, simulasse esse mundo novo. Tal sistema n�o surgiu logo; ainda hoje conserva elementos retr�grados da sociedade pr�industrial. No entanto, a ideia geral de reunir multid�es de estudantes (mat�ria-prima) destinados a ser processados por professores (oper�rios) numa escola central (f�brica), foi uma demonstra��o de g�nio industrial� (Toffler, s/d, cit. por Fino, 2000)

As escolas j� n�o preparavam os indiv�duos como na antiga Gr�cia, pois o tipo de sociedade para a qual haviam sido delineadas tinha sofrido altera��es. Ocorreu um acr�scimo do n�mero de alunos, bem como o aparecimento de grupos heterog�neos, onde as fun��es da escola foram sofrendo modifica��es, passando a ser um armaz�m de "produ��o� de indiv�duos talhados para o trabalho fabril e expectantes pela sua oportunidade no mercado de trabalho.

3.2. Caracter�sticas da Escola Fabril

Sousa and Fino (2001, cit. por Fino, 2002) dizem que:

"Os planificadores da escola destinada a suprir as necessidades da sociedade industrial, tiveram a intui��o de a fazer corresponder a uma antecipa��o da realidade que os alunos haveriam de encontrar no futuro, quando se integrassem na vida activa. Desenharam-na, portanto, segundo um modelo inspirado literalmente nas f�bricas. A import�ncia fundamental desse facto radica na circunst�ncia dos alunos, ao entrarem na escola, passarem imediatamente a 'respirar' uma atmosfera carregada de elementos e de significa��es que se revelaram ser muito mais importantes e decisivos que as meras orienta��es inscritas no brev�ssimo curr�culo 'oficial' da escola p�blica�.

Fino (2000) vem refor�ar esta ideia ao afirmar que "assim, a escola popular nasceu equipada j� com alguns dos artefactos mais representativos da cultura industrial�. Estes objectos comuns � f�brica e � escola � a campainha, a aglomera��o num edif�cio e dividido em salas de aulas por turma, bem como, a exist�ncia de uma hierarquia social patente na rela��o professor/aluno � s�o enunciados por Toffler (1970, cit. por Fino, 2000). A pr�pria concep��o arquitect�nica das escolas segundo Fino (s.d.) � inspirada na estrutura das f�bricas com o intuito de provocar uma "acultura��o� nos alunos.

Fino (2000) refere que al�m dos conhecimentos rudimentares de escrita, leitura, aritm�tica, no��es de conduta e moral, o mais importante na aprendizagem era a obten��o das capacidades necess�rias � satisfa��o das necessidades de produ��o industrial atrav�s da aquisi��o de um conjunto de valores e atitudes. Esta aquisi��o era conseguida atrav�s de um aproximar entre a realidade escolar e a fabril que proporcionava aos indiv�duos uma experiencia semelhante � que iriam encontrar no seu futuro trabalho, com a vantagem de este processo se desenrolar sem qualquer tipo de "perigo� para o aprendiz, bem como para os interesses de produ��o da f�brica. Fino (2001) afirma que o retorno dos custos despendidos com a escolariza��o era facilmente vis�vel atrav�s de um aumento da produtividade e de uma acalmia social.

Segundo Rodrigues (2009) o ensino fabril era uma educa��o terminal, onde a partir do momento em que as crian�as soubessem ler, escrever e falar (3R's), estavam preparadas para o trabalho na f�brica. Esta educa��o era administrada em armaz�ns escola onde a rela��o existente era a de "professor � mat�ria � aluno�, sendo a mat�ria, o factor de maior import�ncia na educa��o, leccionada atrav�s do m�todo expositivo.

Fino (2000) refere que o m�todo de ensino presente na escola de massas teve origem no m�todo de instru��o simult�nea, isto �, a mat�ria era leccionada de forma igual e concomitante para todos os alunos. Ribeiro (2008) diz-nos que este tipo de educa��o deriva do pensamento do fil�sofo ingl�s John Locke, em que este equiparava "a mente dos homens a uma folha de papel em branco�, onde os alunos eram moldados de forma homog�nea indo ao encontro dos interesses da sociedade, e em que a disciplina e o autocontrolo est�o presentes, pois "O grande princ�pio e alicerce de toda a virtude e valor est� nisto: que o homem seja capaz de dar a si seus pr�prios desejos, contrair suas pr�prias inclina��es, e seguir simplesmente, o que a raz�o indica como o melhor apesar do apetite pender para o outro lado...�.

Esta escola formava para os valores de uma sociedade industrial que se baseavam na forma��o de um homem apto para dar resposta �s necessidades de produ��o desta. Assim no campo da escrita, leitura e linguagem era dada apenas uma forma��o m�nima, onde o mais importante era a assimila��o por parte dos alunos do tipo de vida existente na f�brica. Eram deixados assim de parte, tal como acontece nos nossos dias, mat�rias como as artes, filosofia e estudos greco-romanos, porque a finalidade da escola n�o era a forma��o de um homem integral.

3.3. Papel do professor e do aluno

O educador da sociedade industrial tem um papel importante na forma��o do indiv�duo que esta ambiciona, n�o sendo importante o desenvolvimento do pensamento cr�tico, mas a forma��o de um aluno padronizado e especializado para o mundo do trabalho.

Para Castro (s.d.) o professor assume o papel central no processo produtivo, sendo este o principal e �nico respons�vel pela educa��o dos indiv�duos. Possui total liberdade na sua ac��o e forma de ensino, respeitando o programa. Al�m do respeito pelo curr�culo, os professores transmitem os seus valores aos alunos de forma inconsciente, o qual � designado de curr�culo oculto. Tamb�m Ribeiro (2006) afirma que cabe ao professor a incumb�ncia de planeamento, organiza��o e execu��o nas suas aulas, sendo este o portador de toda a verdade.

O aluno acaba por assumir o papel secund�rio, visto a educa��o estar centrada no professor e no conhecimento da verdade que este encerra. Este acaba assim por ser um recipiente absorvente da mat�ria dada, tornando-se num perfeito reprodutor, padronizado pronto para enfrentar os desafios do trabalho mec�nico e fechado da f�brica.

4. Rela��o entre a escola da sociedade industrial e escola da sociedade contempor�nea

4.1. Sociedade contempor�nea

Actualmente, deparamo-nos com uma sociedade capitalista, como refere Marx (s.d., cit. por Leite, 2009), sendo o capitalismo um processo onde ocorre um aumento do capital e uma proletariza��o dos indiv�duos da sociedade � mercantiliza��o � e ainda uma transforma��o de tudo em mercadoria, tal como a terra, instrumentos de produ��o e o pr�prio indiv�duo. A sociedade contempor�nea � tamb�m uma sociedade de efic�cia. Sociedade esta que apenas exige e pouco d� em troca, gerando uma grande insatisfa��o nos indiv�duos. Esta exig�ncia � tamb�m consequ�ncia da sociedade industrial.

4.2. Estrutura e funcionamento da escola

A estrutura da escola actual afigura-se a uma empresa (f�brica). A n�vel arquitect�nico, muitas das escolas contempor�neas assemelham-se �s da escola fabril, sendo estas inspiradas completamente nas f�bricas.

O seu modo de funcionamento � tamb�m outro ponto que tem em comum com uma f�brica. Existe um aglomerado de indiv�duos num edif�cio (escola), tal como na fabrica; divis�o de salas e de alunos por turma, da mesma forma que os oper�rios da f�brica eram divididos segundo as suas fun��es e habilidades; hierarquia social entre o aluno e o professor, como entre oper�rio e o seu chefe; directores como gestores.

Apresenta tamb�m um conjunto de caracter�sticas que abordaremos no subcapitulo 4.3.

4.3. Educa��o na �poca contempor�nea

Na educa��o, e de acordo com Leite (2009), os educadores s�o oper�rios que criam uma mercadoria muito especial (o Homem). O Homem � o �nico ser vivo capaz de criar valores, tal como a for�a de trabalho. Por esta raz�o, � considerado o cora��o do capitalismo. Sendo assim, s�o os prolet�rios que criam novos prolet�rios.

O sistema educativo representa as exig�ncias do mercado de trabalho. Para atender essas exig�ncias, o capital procurou criar sistemas de ensino que produzissem trabalhadores em massa, equiparando-se ao funcionamento de uma empresa (Leite, 2009).

Segundo Leite (2009) o educador, actualmente, incute no educando duas caracter�sticas b�sicas da for�a de trabalho: a disciplina e as qualifica��es. A escola consiste numa institui��o disciplinar, uma vez que transmite ao aluno uma obedi�ncia � hierarquia, o respeito pelos hor�rios, uma obrigatoriedade presencial nas aulas, exercendo um controlo atrav�s dos resultados avaliativos. Estas caracter�sticas s�o uma heran�a da escola fabril, que pretendia aproximar o contexto escolar � realidade da f�brica:

"...desenraizado o trabalhador do seu meio familiar, obriga-o � pontualidade, a uma sujei��o em rela��o � m�quina cuidadosamente ritmada ao som de sinos e campainhas, com marca��o do ponto � entrada e � sa�da e um sistema de multas em caso de falta (...) permite ainda jogar com a rivalidade entre as equipas de oper�rios, desloc�-los para os sectores de produ��o onde a sua habilidade ou a sua qualifica��o lhes permita melhores rendimentos entregando os trabalhos mais pesados aos oper�rios n�o qualificados� (Rioux, 1982, pp. 180-181).

A escola actua tamb�m como uma institui��o qualificadora, pois instrui o educando para que este exer�a trabalhos mais simples ou mais complexos, tendo em conta o tipo de forma��o, ou seja, o trabalhador mais qualificado executa tarefas mais complexas e produz uma mais-valia comparativamente ao trabalhador menos qualificado.

Pires (1996, cit. por Fino, 2002) afirma que, num passado recente, os n�veis de ensino prim�rio, secund�rio e superior eram terminais. A este fim estava associado um diploma que conferia, regra geral, uma sa�da profissional, um prest�gio social e um vencimento pr�-estabelecido. Podemos assim dizer que os objectivos terminais da escola fabril, em formar para suprimir as necessidades de produ��o, est�o presentes no tipo de escola actual.

Hoje em dia verifica-se um tipo de educa��o elementar, preparando os alunos, minimamente, para aquilo que ir�o encontrar no mundo do trabalho. � uma educa��o terminal segundo Rodrigues (2009). A partir do momento que possuem um conhecimento suficiente para trabalhar, �-lhes conferida uma licen�a/diploma de trabalho. Isto � compar�vel ao tipo de ensino conferido na escola fabril onde era fornecido aos alunos conhecimentos prim�rias suficientes para o trabalho que iriam encontrar na f�brica.

A escola procura, tal como a escola fabril, aproximar a realidade escolar � realidade laboral. Isto ocorre frequentemente nas universidades e escolas t�cnicas e profissionais, onde os educadores procuram transmitir aos alunos uma experiencia muito similar �quela que ir�o encontrar nos seus empregos, n�o dando tanta import�ncia �s poss�veis modifica��es que o mundo do trabalho poder� sofrer ao longo dos anos. N�s n�o sabemos qual ser� o tipo de trabalho de amanh�, nem que tipo de cultura estar� presente quando estes alunos estiverem no mercado. As escolas est�o a preparar os alunos para uma realidade imut�vel e n�o para a criatividade e imprevisibilidade.

O m�todo de ensino actual �, em parte, id�ntico ao da escola fabril. Verifica-se, em muitos casos, um tipo de ensino muito pouco interactivo e muito expositivo onde os professores s�o os donos da verdade. Verifica-se assim que o ensino actual � um ensino de massas, como na escola fabril. Os alunos s�o todos moldados de forma homog�nea, sendo o Estado o fim a que se destinam. N�o h� individualiza��o do ensino. No entanto, e segundo o artigo 28.� da Lei de Bases do Sistema Educativo, "Nos estabelecimentos de ensino b�sico � assegurada a exist�ncia de actividades de acompanhamento e complemento pedag�gicos, de modo positivamente diferenciado, a alunos com necessidades escolares espec�ficas�.

O ritmo da educa��o determina o ritmo da vida dos estudantes pois estes realizam tudo em fun��o do tempo que passam na escola, o mesmo verificando-se ao n�vel da escola fabril onde o ritmo da vida era estabelecido pelo ritmo das m�quinas. Isto constata-se no n�mero de horas que algumas crian�as passam na escola, associado aos trabalhos que levam para casa, comparativamente ao hor�rio que tinha um funcion�rio de uma f�brica na sociedade industrial. Podemos afirmar, neste sentido, que os alunos s�o semelhantes aos oper�rios da f�brica pois s�o, muitas vezes, explorados.

4.4. Rela��o entre professor, aluno e Estado

Na sociedade industrial, havia a necessidade de cria��o de um perfil de homem que satisfizesse os desejos da sociedade. Nos dias que correm, a realidade � a mesma, sendo o Estado quem determina o tipo de Homem que quer formar, indo ao encontro dos seus interesses. N�o quer formar cidad�os cr�ticos nem livres, pois estes poder�o ir contra o seu sistema pol�tico, provocando manifesta��es e pondo em causa todas as suas ac��es, mas sim homens especializados para realizarem apenas as suas fun��es no mercado de trabalho de forma fechada, sem qualquer vis�o cr�tica.

Se na sociedade industrial o professor assumia um papel central e o aluno um papel secund�rio, na sociedade contempor�nea tanto o professor como o aluno assumem pap�is secund�rios. � importante real�ar que na sociedade actual, o centro � o Estado e os agentes educativos (alunos, professores, pais, profissionais da educa��o) s�o submissos ao mesmo. O professor executa tarefas padronizadas, tal como na ind�stria. Mas, ao contr�rio da escola fabril, o controlo do seu trabalho n�o est� nas suas m�os, contudo este tem controlo sobre o curr�culo oculto, tal como afirma Leite (2009). Tal deve-se ao acto de existirem curr�culos pr�-determinados pelo Estado, aos quais os professores devem-se basear. Estes possuem apenas a oportunidade de seleccionar certos conte�dos, dentro de uma mat�ria definida pelo Estado. O aluno nas escolas actuais assume, tal como na escola fabril, um papel passivo, sendo apenas um reprodutor da verdade institu�da pelo professor (Esp�rito de carneirada). Leite (2009) declara que a elevada press�o exercida em cada disciplina � comparada ao incremento da velocidade de produ��o de uma f�brica. De acordo com Fino (2001), "A Humanidade foi capaz de sobreviver mil�nios sem precisar de uma escola de massas, controlada pelo Estado. Talvez, no futuro, reaprenda a prosseguir sem ela�.

A grande press�o que os prolet�rios sofriam nos seus trabalhos na f�brica, no sentido de obterem bons resultados e n�o serem despedidos � mais uma das transfer�ncias que podemos fazer para a escola actual onde os alunos s�o pressionados a obterem boas notas para passarem de ano, entrarem na Universidade e posteriormente no mercado de trabalho, dada a grande concorr�ncia existente.

No que concerne � opress�o das condi��es de trabalho, estas t�m aumentado constantemente, desenvolvendo nos educadores um conjunto de mecanismos de defesa (faltas, licen�as m�dicas), � semelhan�a da f�brica. Esta opress�o promove tamb�m no aluno comportamentos indisciplinares, sendo os professores os mais afectados com a revolta dos alunos e administra��o do Estado (Leite, 2009). A insatisfa��o e sentimento de injusti�a de muitos oper�rios dada as condi��es de trabalho miser�veis, vai de encontro � insatisfa��o dos alunos actuais pois estes perspectivam um futuro pouco afortunado no mercado de trabalho, ou por n�o possu�rem habilidades ou simplesmente pelo facto de j� n�o haver necessidade de empregar mais pessoas. Mais uma vez, temos o Estado como finalidade da educa��o, pois desde o inicio � transmitido aos alunos a import�ncia de ter um trabalho numa determinada �rea e n�o uma forma��o integral que permita aos alunos seguir por outros caminhos.

"O problema � que a obsess�o pelo controlo, longe de fazer diminuir o fosso entre a "realidade� escolar e a realidade exterior, tem sido contempor�nea da sua progress�o inexor�vel, circunst�ncia que d� �nimo � impress�o da caducidade do paradigma fabril, estruturante da escola ainda actual, e for�a � ideia da necessidade de se inventar um novo paradigma para uma nova escola� (Fino, 2002).

5. Conclus�o

Numa sociedade como a dos dias de hoje, que � considerada como evolu�da e superior, ainda se podem observar similaridades com a sociedade industrial, no que diz respeito � Educa��o dada nas escolas. A utiliza��o do modelo das f�bricas como instala��es e regras a seguir nas escolas, reflecte-se na Educa��o que � dada aos cidad�os, pelas parecen�as que existem entre o funcionamento de uma f�brica e de uma escola, bem como pelos objectivos que a estas est�o inerentes. A utiliza��o do modelo das f�bricas de oper�rios na constru��o de um modelo educativo que se adequasse � sociedade, est� intimamente associado com a influ�ncia que o Estado tem em todo o processo educativo, pelo seu desejo de formar indiv�duos que ocupem pap�is espec�ficos, sendo a sua forma��o dada de acordo com esses pap�is ocupados na sociedade em que se inseriam. A justifica��o para este modelo de escola fabril encontrase com a solu��o encontrada para o tipo de educa��o pretendida, o ensino em massa, No entanto, ser� este m�todo de forma��o o mais correcto e indicado para a forma��o do indiv�duo?

Podem-se verificar diversas similaridades entre as escolas e as f�bricas, como a compara��o entre os alunos e a mat�ria-prima das f�bricas, pela transfigura��o e altera��o feita em ambos, ora por parte das m�quinas, ora por parte do professor. Tamb�m na f�brica, tal como na escola, existe uma segmenta��o de funcionalidades por parte dos elementos constituintes destes locais. O papel secund�rio tanto do professor como do oper�rio pode ser verificado, sendo que ambos est�o ao servi�o de uma entidade superior (Estado, especialistas). O produto final em ambos � o mais valorizado, sendo que a efici�ncia e aos m�todos que s�o utilizados para alcan�ar esse produto. A presen�a da avalia��o � tamb�m um factor comum entre a escola e a f�brica, sendo que � esse factor que define a qualidade do produto final. Por fim, os produtos com qualifica��o s�o postos no mercado, podendo estes serem os alunos com n�veis superiores de qualifica��o, ou o produto do qual a f�brica � respons�vel por produzir. Com isto, pode-se verificar a rela��o intrincada entre a f�brica e a escola, sendo a influ�ncia das f�bricas no processo de educa��o do aluno bem vis�vel.

Posto isto, podemos concluir que o papel do professor est� condicionado por diferentes factores, n�o sendo o que deveria ser o mais correcto, ou seja, educar o aluno, guiando-o e fornecendo-lhe as ferramentas necess�rias para que este se torne um cidad�o cr�tico e aut�nomo, ao inv�s de o tornar um especialista de determinadas fun��es que lhe v�o permitir ocupar um lugar espec�fico na sua sociedade. � este o desejo do Estado na forma��o do indiv�duo e na sua educa��o, "castrando-o� de capacidade de pensamento cr�tico ou de reflex�o, visto que isto se poderia tornar uma amea�a �s regras impostas por estes � sociedade. Segundo Fino (s.d.) o nosso tempo, no entanto, � o tempo dos professores e, por ironia, um tempo em que, no nosso pa�s, se fecham as escolas onde n�o se pode fazer um ensino em massa por falta de alunos em n�mero suficiente para isso. Tal como existia uma grande car�ncia de m�o-de-obra nas f�bricas da sociedade industrial, nas escolas actuais existe uma necessidade de alunos para promoverem o ensino em massa, pois, muitas escolas com menos de X alunos fecham as suas portas. Aqui se pode constatar a verdadeira influ�ncia da sociedade industrial na sociedade actual e na educa��o.

Enquanto n�o existir uma Universaliza��o da educa��o, n�o existir� uma evolu��o da mesma, pois continuar�o a ser formados cidad�os especialistas, com capacidades limitadas para as suas fun��es espec�ficas, quando se deveria incidir na forma��o integral do Homem, que n�o existir� enquanto o modelo educativo estiver baseado na sociedade industrial e na influ�ncia do Estado dentro do ensino.

6. Refer�ncias Bibliogr�ficas

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