O Segundo Capítulo intitulado

INTRODUçãO

Este trabalho se propõe a analisar a prática educativa das Franciscanas de Dillingen, a partir da observação do cotidiano do Colégio Santa Rita, situado na cidade de Areia-PB, durante o período correspondente ao internato (1937-1957). é um estudo do modelo educativo e de como suas práticas eram usadas na formação do caráter feminino. Prática educativa é aqui entendida na perspectiva de "um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos" (JULIá, 2001, p.11) que recai sobre os sujeitos que estarão envolvidos na obediência das normas e no estabelecimento das práticas escolares.

O Colégio Santa Rita é uma importante instituição educacional, sediada na cidade de Areia, na Paraíba e faz parte das obras da Ordem Terceira de São Francisco. Ordem de origem alemã, surgida no século XIII, momento em que a Alemanha vivia um período de grandes transformações em decorrência de um novo modelo de economia ligado ao desenvolvimento das cidades, com a busca de uma nova organização sócio-econômica, da divisão entre o Sacerdote e o Imperador na luta pelo poder, na instalação da inquisição pelo Papa Gregório IX, enfim, fortalecia-se o interesse das famílias nobres em preservar ou aumentar seus bens. Nesse ambiente, as Franciscanas de Dillingen surgiram apenas como uma comunidade de Irmãs, as quais fundaram posteriormente uma congregação, cujos princípios ou costumes se baseavam nas regras de São Francisco de Assis. Em um período em que, por causa das guerras e cruzadas, havia um excedente de mulheres submissas aos seus maridos, ocorre uma profunda inquietação religiosa sob a atração da vida monástica. Essas Irmãs, após desenvolverem várias atividades em países europeus e depois de se expandirem para os EUA, chegaram finalmente ao Brasil, no início do século XX.

Segundo consta no livro "Irmãs Franciscanas de Dillingen - Da expansão ao Hoje de Nossa História", uma tradução da Irmã Sueli Rubens Sendra (2007), as Freiras de Dillingen partiram para a América do Sul, chegando ao Brasil no ano de 1937, primeiramente na cidade de Cabo Frio, RJ. Afastadas "bruscamente" da Alemanha pelo Movimento Nazista, ao chegarem a terras brasileiras assumiram atividades não só religiosas, mas também sociais e educacionais.

Entretanto, o Colégio Santa Rita foi fundado em 1912, pelo Vigário Odilon Benvindo de início com o trabalho das freiras francesas da congregação da Sagrada Família, as filhas de Santa Emília de Rodat e depois, em 1937, dando continuidade com as Franciscanas de Dillingen. O Colégio dedicou suas atividades à educação feminina, desde sua fundação até 1972. Após esse ano, abriu vagas aos alunos do sexo masculino e, ainda hoje, ocupa importante papel no cenário educacional da cidade de Areia, no brejo paraibano.

Inicialmente, o Colégio Santa Rita funcionava em regime de internato e externato, com a maioria das alunas provindas de classes sociais mais elevadas. Entretanto, as Irmãs ofereciam vagas às alunas carentes, que prestavam serviços domésticos e, em troca, recebiam educação. Os processos educacionais se configuravam visando à cuidadosa formação de suas alunas, de acordo com os ensinamentos de Cristo, visto que se trata de uma escola confessional católica em que, desde o início de suas atividades, obteve grande projeção na sociedade local e regional, contando com grande prestígio e reconhecimento da sociedade areiense. As Franciscanas de Dillingen estavam preocupadas com a formação de seus educandos, constituindo-se a "base sólida" de uma educação que valoriza e respeita o ser humano, sendo os princípios norteadores: a comunhão, a verdade e a solidariedade.

Sendo assim, nesse estudo interessa-nos entender a formação do caráter feminino a partir do modelo educativo desenvolvido pelas freiras durante o internato, pois a rotina desenvolvida através das práticas escolares e culturais dessa Instituição apresentava como objetivo, modelar o caráter feminino, a partir dos hábitos, costumes, crenças e valores, como formas corretas de ser mulher. Sabemos que tais instituições, algumas centenárias, exerceram a função de "formar" inúmeras gerações, contribuindo para a erradicação de modelos educacionais diversificados.

A partir destas considerações, construímos o objetivo deste trabalho sob o aspecto de analisar o período do internato (1937-1957) do Colégio Santa Rita e seu cotidiano, na cidade de Areia-PB, para entendermos melhor o seu modelo educativo.

A pesquisa está aportada no ano de 1937, por ser a data da instalação das Franciscanas de Dillingen na cidade de Areia/PB, com a introdução da Escola Normal, primeiramente, objetivando a formação de professoras primárias e, posteriormente, o internato e externato apenas para moças. Na outra ponta da periodização, está o ano de 1957 por sinalizar o início de mudanças na organização do ensino no Colégio Santa Rita, devido à implantação do Curso Industrial, promulgado pelo presidente Juscelino Kubitscheck, oficializado pelo decreto n° 46.715, de 25/08/1959, e da Reforma do Ensino Normal de 1957, que instituiu uma mudança profunda na organização curricular das escolas.

O objeto de nosso trabalho surgiu no decorrer da pesquisa realizada durante a elaboração do Trabalho Acadêmico Orientado (TAO), apresentado ao término da Licenciatura Plena em História da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), dedicado a recolher as memórias de ex-alunas e freiras do período do internato.

Durante a realização da pesquisa monográfica, foi possível perceber uma enorme lacuna de trabalhos que tratem da temática no campo de conjunturas locais, principalmente no que concerne ao período do internato e suas práticas escolares e culturais, pois nos interessa entender, a partir do modelo educativo desenvolvido no Colégio Santa Rita, a formação educacional e moral das mulheres. Com isso, o que mais nos tem causado estranhamento é o demasiado silêncio sobre a ação pedagógica das Ordens religiosas femininas, assim como a ação dos franciscanos de uma maneira geral. Embora existam poucos registros sobre a ação educacional dos franciscanos na história da educação, supomos que eles tenham deixado sua marca e contribuição para e na formação do campo educacional e cultural brasileiro, desde a sua origem.

Por outro lado, esta lacuna pode estar ligada ao fato de que os estudos sobre cultura escolar no Brasil ainda são muito recentes. Apesar de recente, muito tem sido produzido sobre o tema conforme podemos perceber a partir de estudos que vem sendo apresentados nos principais eventos (congressos, encontros e simpósios) relativos à História da Educação Brasileira, pois a categoria cultura escolar vem auxiliando as análises históricas e assumindo visibilidade na estruturação propriamente dita de eventos do campo. Como por exemplo, temos a conferência de encerramento do XV Encontro de Estudos Internacionais de História da Educação, em Lisboa (1993), proferida por Dominique Juliá apresentando "A cultura escolar como objeto histórico" e, também, o periódico Cadernos Cedes, n.52, editado em 2000, todo dedicado à temática "Cultura escolar: história, práticas e representações".

Segundo Xavier (2003), o campo de pesquisa sobre a história da escola e/ou da instituição escolar tem apresentado alargamento dos objetos de pesquisa, especificamente referindo-se ao eixo temático "Práticas escolares e seus processos educativos". Essa observação remete para o entendimento de que há, por parte dos pesquisadores, uma tendência direcionada ao interesse do conhecimento sobre o funcionamento interno da escola, na compreensão de que no seu interior existe uma cultura em processo de formação pelas variadas práticas dos sujeitos que ocupam esse espaço articulando-se com outras práticas culturais mais amplas da sociedade.

Portanto, como o interesse central do nosso estudo é analisar o modelo educativo do Colégio Santa Rita, referindo-se a cultura escolar e a suas práticas ocorridas no interior da Instituição, daremos particular atenção aos mecanismos de disciplinamento que funcionavam no cotidiano dessa Instituição.

No que se refere à educação feminina, analisaremos, através do processo de sujeição, o que historicamente tem transcendido na relação educador-educando e o período de escolarização, pois culturalmente, ao longo dos tempos, como práticas antigas e modernas, o conhecimento que é dado à mulher reforça um modelo de inferioridade, de submissão e de subserviência, de modo que a sua educação produza um conhecimento diferente daquele conquistado pelo sexo masculino. Assim se refere Passos (1995, p.30-31):

O poder disciplinar que perpassa a formação feminina e reforça os preconceitos de inferioridade em relação à mulher é propagado e até construído pelos aparelhos do Estado, em especial a família e a escola, que veiculam valores que servem para reafirmar uma determinada forma de ser mulher.

Esse poder disciplinar é analisado em nosso estudo como uma forma de exercício colocada em prática no processo educacional de modo a adquirir seus objetivos quanto ao disciplinamento, postura, educação, obediência e aprendizado. Com isso, procuramos saber de que forma o poder disciplinar era exercido no Colégio Santa Rita, se de forma sutil ou através de punições. Verificando, assim, como se dava o cotidiano do Colégio, se as alunas absorviam os princípios passados através de uma rotina de discursos, de hábitos adquiridos cotidianamente através dos ritos e regras ali estabelecidos, de olhares afirmativos e repreensivos.

Para tanto, a preocupação se estende também em conhecer a estrutura interna do Colégio Santa Rita, mais especificamente do seu internato, os limites que essa instituição educacional impunha as suas alunas, os direitos que elas possuíam lá dentro, as relações que mantinham com as religiosas, o que se processava no interior do internato que servia para modelar as jovens, impor limites, criar convicções, moldar. Podemos observar que o internato do Colégio Santa Rita atendia alunas em tenra idade que lá permaneciam por cerca de sete anos, basicamente sem nenhum contato com o mundo externo, salvo nos períodos de férias ou através de contatos que mantinham com os familiares em datas e horários definidos pela direção da Instituição.

Concomitantemente, o presente estudo se insere na perspectiva de compreender melhor os conceitos de cultura escolar e práticas escolares, no sentido em que procura conhecer e trabalhar com o cotidiano de uma escola religiosa, buscando compreender através do que se passa no dia-a-dia da instituição, nas atividades desenvolvidas nas salas de aulas, nos dormitórios, no refeitório, nos banheiros, nos recreios, o que era ensinado, o que era permitido ou proibido, enfim, de que forma esse modelo educativo das Franciscanas de Dillingen servia para modelar e construir uma sólida formação educacional nas jovens internas.

Considerando que esse cotidiano possuía uma organização determinada pelas normas e estatutos, este trabalho será construído a partir de uma criteriosa pesquisa em documentos existentes no arquivo, na secretaria e na biblioteca do Colégio Santa Rita, bem como de entrevistas com algumas ex-alunas e sucessivas visitas as dependências da escola. Busca-se, assim, compreender os valores, os mecanismos disciplinares e a postura das religiosas que tinham por finalidade impor às alunas respeito, obediência e comportamento desejado. Trabalhamos, como fontes primárias, com documentos manuscritos, fotografias, livros de anotações da secretaria do colégio, livros de atas, relatórios de superiores (as), entre outros. Contamos, também, com alguns documentos recolhidos no Colégio Santo Antônio em Duque de Caxias RJ, que trouxeram informações importantes sobre a vinda das irmãs para o Brasil.

Para entender melhor os conceitos de cultura escolar e de práticas escolares, utilizaremos o suporte teórico dos trabalhos de Juliá (2001) e de Viao Frago (1995), quando afirmam que é na organização do cotidiano que as finalidades de educação se configuram, e de Chervel (1990), na história das disciplinas escolares, bem como, com uma literatura complementar sobre a História das Franciscanas de Dillingen, da Igreja e da Ordem de São Francisco no Brasil, sobre o contexto sociocultural da época e sobre gênero, visando analisar o contexto social do período estudado para entender a educação feminina e o que essa educação representava para a Igreja e para a sociedade areiense.

O próprio conceito de cultura escolar tem sido aplicado de diversas formas, sendo adotado pela ótica de cada pesquisador nas perspectivas de explicação das práticas internas da instituição escolar. Portanto, "o olhar para essas práticas cotidianas da escola fixa-se nos acontecimentos silenciosos do seu funcionamento interno. Silenciosos sejam pela ausência de documentos ou por documentos pouco conservados." (GONçALVES; FARIA FILHO, 2005, p. 33).

Para Souza (2000, p. 9), as pesquisas recentemente realizadas no Brasil sobre cultura escolar abrangem uma grande variedade de fontes e apresentam-se justapostas a outras áreas de estudos já constituídas ou em constituição. As práticas escolares cotidianas, a organização curricular prescrita e efetivada, os processos de construção do conhecimento escolar, os métodos de ensino, entre outros aspectos antes desconsiderados, têm possibilitado a construção de interpretações mais abrangentes e a compreensão da complexidade dos processos próprios da educação escolarizada.

Por outro lado, as pesquisas sobre a história das disciplinas escolares se desenvolvem nas décadas de 1970 e 1980, quando se percebe que a escola não é apenas uma instituição que reproduz desigualdades sociais, mas um lugar de produção de saberes e práticas sociais e culturais. Se a historiografia, no que diz respeito à história da educação, abrangia estudos voltados para as políticas educacionais, agora existe um olhar voltado para o trabalho escolar, para o que é desenvolvido no interior das salas de aula e no cotidiano das escolas.

Nessa perspectiva, observamos que é através da história cultural que podemos compreender as disciplinas escolares como práticas culturais, devido a sua produção desenvolvida no interior da escola e não mais como construção formal. Os pesquisadores de história da educação passam a se interessar pelos tempos e espaços escolares, pelas práticas de leitura e escrita, pelos relatórios pedagógicos, pela arquitetura, pelos espaços codificados, pelo modelo educativo, pois "a escola interpretada a partir de seu cotidiano, transforma-se em espaço vivo e dinâmico, mas ainda pouco explorado" (FARIA FILHO, 2004, p. 56).

No que diz respeito à história cultural, esta permite reconstruir o passado como objeto de pesquisa, tentar atingir a percepção dos indivíduos no tempo, quais são seus valores, aspirações, modelos, ambições e temores, pois o homem é um ser em permanente busca de si mesmo, de suas referências, de seus laços identificadores. Nesse sentido, a identidade, além de seus aspectos estritamente individuais, apresenta uma dimensão coletiva como um processo de compartilhar experiências, mesmo que inúmeras vezes sob a forma de conflitos refiram-se a integração do homem como sujeito de construção histórica.

Segundo Chartier (1988), a história cultural identifica o modo como, em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é pensada, construída e dada a ler. As representações sociais fundadas na razão e na representação de poder são sempre determinadas pelos interesses dos grupos que dominam, pois "[...] pode-se pensar uma história cultural do social que tome por objeto a compreensão das formas e dos motivos ou por outras palavras, das representações do mundo social." (CHARTIER, 1988, p. 19).

Com relação ao estudo da história das disciplinas escolares, percebemos em Chervel (1990, p. 180) que a disciplina "é em qualquer campo que a encontre, um modo de disciplinar o espírito, quer dizer de lhe dar os métodos e as regras para abordar os diferentes domínios do pensamento, do conhecimento, da arte". Para o autor, o estudo das disciplinas escolares pode contribuir para que se compreenda a cultura produzida na escola, pois o sistema escolar desempenha um poder fundamental na formação dos indivíduos modificando a sua vivência na sociedade, capaz de "formar uma cultura que vem por sua vez penetrar, moldar, modificar a cultura da sociedade global" (CHERVEL, 1990, p. 184).

é imprescindível considerar que toda organização curricular inserida nas disciplinas escolares não surgiu de forma inocente e imparcial na transmissão de conhecimentos, pelo contrário, a estrutura destes currículos foi produzida através de valores e interesses de acordo com os objetivos educacionais proposto pela Instituição.

O Colégio Santa Rita estava comprometido com o ideal da educação feminina, desejado pelas famílias de elite e pela sociedade, o que podemos considerar na importância da escolha do colégio que, de certa forma, a maioria das famílias acabava sendo influenciada pelas concepções da Igreja, que concebia como ideal a educação por ela organizada. Esta proposta educacional, orientada pelos princípios do catolicismo, não se tratava apenas de, "[...] um projeto católico de formação individual, mas de grandes propósitos educativos e de moral para toda a sociedade [...]" (CUNHA, 1999, p. 100), pois se destinava à construção de um modelo de mulher educada, aperfeiçoada e cristã convicta. Nessa perspectiva, avaliamos que a finalidade de estabelecer um modelo educativo direcionado para o feminino, visando os padrões sociais vigentes, foram determinados por "princípios" nas práticas cotidianas, nos costumes, nos modos de agir, e principalmente na organização curricular e pedagógica dos colégios religiosos para alcançar uma boa formação educacional.

Sabe-se que, a história das disciplinas escolares "desempenha um papel importante não só na história da educação como também na história cultural, pois o caráter criativo do sistema escolar é um receptáculo dos subprodutos culturais da sociedade." (CHERVEL, 1990, p.184),

Para Viao Frago (2000, p. 100), disciplina escolar "pode ser definida como um conjunto de idéias, princípios, critérios, normas e práticas sedimentadas ao longo do tempo das instituições educativas", pois é no interior das escolas que se produzem modos de pensar, de vida, de hábitos e ritos.

O Colégio Santa Rita, sendo um colégio confessional desde sua formação, passou a ser reconhecido como um estabelecimento, cujo trabalho tinha como elemento propulsor o processo formativo-educativo. Uma instituição que se caracterizou, à época do internato, como uma escola de aprimoramento da cultura e da sociabilidade das educandas, preocupando-se em torná-las damas capazes ao convívio social, virtuosas e polidas, religiosas convictas, de tal forma que pudessem educar seus filhos nestes princípios [de quem é essa informação???].

Segundo Juliá (2001, p.10), a cultura escolar é "um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos". Normas e práticas que venham a ser compreendidas de acordo com a sua finalidade seja ela religiosa, sociopolítica ou mesmo de socialização imposta pela razão moral, de forma a interiorizar os valores apresentados sobre os indivíduos que estão envolvidos com as práticas diárias do fazer escolar.

Esta é exatamente a função da cultura escolar: "abrir a caixa preta da escola, ao buscar compreender o que ocorre nesse espaço particular, em seu interior" (JULIá, 2001, p. 13). Verificar o que ocorre no cerne da escola, vasculhando documentos produzidos pelos próprios professores e alunos, não privilegiando as fontes tradicionais, mas indo à procura de outros documentos, como, por exemplo, os relatórios das aulas, cadernos escolares, anotações de aula etc., uma busca por fontes que apresentem as práticas culturais produzidas no interior da escola e em seu cotidiano.

A educação concebida pelas Franciscanas de Dillingen sugeria um sistema fundamentado na razão, na religião, no amor e na obediência. Na criação de um espaço dedicado ao aprendizado, geralmente iniciado às seis horas da manhã, e acompanhado por trabalhos manuais, orações individuais ou coletivas, todas controladas pelo relógio, que não permitia nenhum espaço livre para ociosidade. [de quem é essa informação???]

O dia-a-dia da vida das alunas tinha um ritmo próprio, marcado pelos horários, cumpridos à risca, e pelas orações. As badaladas do sino alertavam para o iniciar e concluir de determinada atividade, pois o sino, as orações sempre estiveram presentes no dia-a-dia das alunas, desde o despertar até a hora de dormir. [de quem é essa informação???]

Os colégios confessionais católicos vieram desempenhar um importante papel como instituições escolares que se dedicavam à formação das alunas. E a sociedade atribuía a esses colégios a responsabilidade desta "apropriada formação", visto que a igreja católica foi importante no processo educacional, principalmente na educação escolar das mulheres, enfatizando a formação da esposa, da mãe e da professora; promoveu através dos internatos femininos católicos uma educação direcionada para a disciplina e para a formação moral, na intenção de gerar um modelo de mulher ideal de acordo com os novos programas e métodos de ensino estabelecidos a partir do século XVIII, que primavam por uma educação refinada, permeada de valores religiosos, sensibilidades, imagens e gestos cuidadosamente construídos, que traçavam os contornos das jovens.

Para se chegar ao comportamento considerado desejado pelas freiras alemãs no Colégio Santa Rita, foi preciso investir na formação da educação feminina através da disciplina e do poder, mediante a criação de convicções de modo a formar mulheres capazes de cumprir seus deveres em todas as circunstâncias da vida, pois o modelo educativo das Franciscanas de Dillingen se apresentava no disciplinamento dos valores, costumes, crenças, moral e obediência, que, certamente, é o mais significativo do processo educacional, pois impõe limitações, determina obrigações, define gestos e atitudes, codifica espaços.

As instituições educacionais são consideradas importantes objetos de estudo dentro da História da Educação, além de estarem inseridas num determinado contexto sócio-político e econômico, são também espaços onde encontramos modos de pensar e fazer educação diferentes, de acordo com os objetivos de determinado projeto de formação que se tem em mente e com o contexto em que está inserido.

Portanto, conhecer as experiências das Irmãs Franciscanas de Dillingen, dentro da História da Educação, significa ampliar a nossa memória, as nossas escolhas e as nossas possibilidades pedagógicas. A nossa proposta de pesquisa não está vinculada à história dos franciscanos em geral, mas direcionada para a Ordem religiosa feminina de franciscanas, que imigraram da Alemanha para a cidade de Areia, visando conhecer o seu projeto escolareducacional. Pretendemos contextualizar a sociedade em seus diversos aspectos para que a educação feminina inserida nessa mesma sociedade possa ser compreendida.

No que se refere à metodologia adotada no presente estudo, trabalhamos na linha de pesquisa Ensino de História e Saberes Históricos, entendendo a cultura escolar como intrínseca à cultura histórica, a partir da prática educativa do Colégio Santa, Rita desenvolvida pelas Franciscanas de Dillingen, e de como essa prática era usada na formação das jovens do internato, dando particular atenção aos mecanismos disciplinares.

A pesquisa não pretende escrever a história do Colégio Santa Rita, mas analisar o cotidiano da escola sem perder de vista o contexto histórico, na finalidade de compreender a natureza do modelo educativo das Freiras alemãs na educação das jovens internas e conhecer os elementos culturais valorizados. Nesse sentido, procuramos descrever a sociedade, a cultura e o modelo educacional brasileiros, nos anos de 1937 a 1957, enfatizando a Paraíba e, em particular, a cidade de Areia-PB; caracterizar a educação dada às mulheres no período estudado e o modelo educacional das Irmãs Franciscanas de Dillingen; e analisar a prática educativa das franciscanas alemãs no Colégio Santa Rita Areia/PB, a partir dos documentos oficiais existentes na escola e do depoimento dado pelas ex-alunas, em regime de internato, durante o período estudado.

Contudo, inicialmente, realizamos, como metodologia, o levantamento de ex-alunas internas do período do internato, identificando a sua cidade de origem. Em seguida, foi feito um levantamento bibliográfico sobre o tema, para que obtivéssemos respaldo teórico necessário para delimitar o cenário escolar enquanto espaço de formação da mulher, inseridos num contexto sócio-político-econômico e cultural. Através da análise de documentos tais como: atas de reunião pedagógica, de reuniões administrativas; livros de matrícula, de resultados finais, de inspeção; diários de classe; regimento escolar; diários particulares; relatórios de aula, dentre outros, fizemos um estudo exploratório enfocando a relação entre o ensino ministrado e os fluxos de representações sociais no âmbito escolar.

Enquanto importante recurso metodológico, utilizaremos, também, algumas técnicas da História Oral, através do registro de depoimentos de pessoas envolvidas no cenário do Colégio, pois esta se traduz num importante recurso que abriga palavras dando sentido social às experiências vividas sob diferentes circunstâncias, além de valorizar a experiência humana (individual ou coletiva). Os roteiros de entrevistas foram elaborados em harmonia com os objetivos pretendidos, ou seja, as perguntas foram cuidadosamente preparadas a fim de que o depoente se sentisse "à vontade" para respondê-las. Dessa forma, as respostas poderão ganhar mais clareza e vivacidade, na medida em que o entrevistador não interfere nem induz as colocações do depoente. Realizadas as entrevistas, os relatos serão gravados e, posteriormente, transcritos, sendo considerados como fontes de pesquisa.

O trabalho está estruturado em três partes. O Primeiro Capítulo, intitulado: Sociedade, Cultura e Educação, descreve a sociedade, a cultura e o modelo educacional brasileiros, nos anos de 1937 a 1957, enfatizando a Paraíba e, em particular, a cidade de Areia-PB.

O Segundo Capítulo, intitulado: Educação Feminina na Escola Confessional: A Boa Formação das Moças, se propõe caracterizar a educação dada às mulheres no período estudado, as Escolas Normais e as ordens religiosas, no que concerne a educação feminina, e o modelo educacional das Irmãs Franciscanas de Dillingen, analisando, também, o papel da Igreja, seus preceitos e dogmas.

O Terceiro Capítulo, intitulado: A escola vista por dentro, visa analisar a prática educativa das franciscanas alemãs no Colégio Santa Rita Areia/PB, a partir dos documentos oficiais existentes na escola e do depoimento dado pelas ex-alunas, em regime de internato, durante o período estudado. Objetivamos estudar o cotidiano da escola, visando compreender de que forma essa prática educativa serviu para formar, moldar, aperfeiçoar suas educandas. Buscamos, ainda, ver como esse cotidiano estava normatizado, como as alunas deviam se comportar, o que deviam levar para o Colégio. Analisaremos, também, as doutrinas que eram colocadas em prática naquele cotidiano para formar uma maneira de ser feminina, de modo a disciplinar não apenas o espírito, mas também o corpo e a mente.

Sendo assim, nossa pesquisa procura integrar os temas referentes no campo da História Cultural, da Igreja e da Educação. A proposta da dissertação "Segredos do Internato: o modelo educativo do Colégio Santa Rita Areia/PB (1937-1957)" tenta avaliar os aspectos das práticas escolares e da cultura escolar dessa Instituição direcionada à educação confessional feminina, procurando conhecer as características do modelo educativo das Franciscanas de Dillingen; compreender o modo pelo qual as famílias aderiram à proposta educacional do internato e lhes confiou suas filhas, como se apresentava a estrutura curricular, seus horários e seus professores através do cotidiano do Colégio; observar o contexto social, político e econômico do período; e, ainda, analisar quais foram as marcas que o Colégio imprimiu em suas alunas.

Portanto, como Considerações Finais tentaremos mostrar como a intencionalidade dos processos educacionais utilizados no modelo educativo das Franciscanas de Dillingen, do Colégio Santa Rita, estava condizente ou não com a pretensão da sociedade patriarcal da época e de acordo com os padrões sociais vigentes nesse período, difundidos pelas práticas cotidianas, pelos costumes e valores, e pela organização curricular e pedagógica.

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